Luzes na Floresta
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sábado, 08 julho, 2006
Benedicto Monteiro - Achados da memória

A imprensa de hoje notícia que o escritor, poeta, político e lutador social Benedicto Monteiro, 82 anos,paraense de Alenquer, sofreu um AVC e está em estado grave numa clínica do Rio de Janeiro. A saúde do Bené não anda muito bem nos últimos tempos, mas é com a garra de sempre que ele vem resistindo e contornando seguidos reveses. Oxalá que possa superar mais este, brindando-nos com sua arte e com seu exemplo de alguém que há décadas luta em defesa do povo pobre de sua terra amada.

Há muito sua extensa e premiada obra literária  alcançou o status de referência em termos da melhor literatura brasileira. É impossível esquecer do extraordinário Verde Vagomundo ou de sua enxuta, mais igualmente brilhante, produção poética.

A mim, por exemplo, são de uma qualidade ímpar seus versos no O Cancioneiro do Dalcídio, editado pela PLG Comunicação e pela Falangola editora, no já distante 1985. Como se sabe, esta obra verte para a poesia textos em prosa do grande Dalcídio Jurandir, valorizando e, ao mesmo tempo, extrapolando a perspectiva e abrangência da produção original.

Entre tantas poesias, destaco "Memória Perdida", cujo ponto de partida foi um exerto de Primeira Manhã (Dalcídio Jurandir, 1968):

"(...)Meu Deus, de onde venho, que flor sai eu deste enxerto preto e branco? Vadios malfeitores ratoneiros ladrões condenados, tais foram os primeiros colonos do Pará, assim falava o pai num tom de lástima e troça. Dos brigues da África descarregavam o sofrimento".

MEMÓRIA PERDIDA

Meu Deus

de onde venho eu

que flor saiu

deste enxerto preto-e-branco

mais preto do que branco

mais branco com alma preta

mais carne do que alma

mais calma do que carne

mais homem

ou mais mulher?

Oh meu Deus

de que Deus sou eu

da mata ensolarada

da selva enverdecida

do campo ensombreado

do rio manso perdido

ou da lua

do sol

do céu?

Que sangue me acalora

que desejo

me devora

que alma

me apavora

que sonho

me comemora

que fui

que sei

que sou?

(Benedicto Monteiro)

Foto:www.verdevagomundo.com.br

Deputado estadual, Benedicto Monteiro, com o ex-presidente Jango Goulart (início dos 60)



postado por Luzes na Floresta - Edmilson Rodrigues as 05:21:26 3 comentários
terça, 27 junho, 2006
Max Martins, 80 anos - Um poeta universal

(poesia)

 

Teu nome é não em cio e som farpados

Cilício escrito, escrita ardendo, dentro

se revendo

fera

do silêncio úmido se lambendo, lábil

labiríntima       lâmina se ferindo

se punindo

 

Aluída a lua

fruir o rio

ruindo”.

.

Marahu

 

A praia

A tarde se desdiz

te diz

      se estende

         e te dissolve”.

 

Max Martins  

Nasceu em Belém, Pará, em 20 de junho de 1926, tem mais de meio século de poesia publicada. Dentre sua vasta obra poética destacam-se, entre outras, O Estranho (1952), Anti-Retrato (1960), O Ovo Filosófico (1975), Caminho de Marahu (1983) e Não para Consolar: Poesia Completa (1992).



postado por Luzes na Floresta - Edmilson Rodrigues as 07:46:30 3 comentários
sexta, 16 junho, 2006
Relatório do CIMI : Índios no Brasil (2003-2005): terror e violência

O peso da decepção não poderia ter sido maior, pois, afinal, eram enormes no seio dos povos indígenas as expectativas abertas com a eleição de Lula. Esperava-se que houvesse chegado o dia em que o Estado brasileiro  pagar essa enorme dívida feita de sangue e de destruição física e cultural, que remonta à invasão européia de 1500. O que muito poucos poderiam prever era o quadro de terror e violência crescentes contra os povos indígenas no Brasil, retratado de forma contundente e fiel por mais um relatório do Conselho Indigenista Missionário (Cimi), que acaba de se tornar público.

O texto intitulado “A violência contra os povos indígenas no Brasil – Relatório 2003-2005”, traz números desconcertantes. Por exemplo, a média de índios assassinados a cada ano dobrou, se comparados os períodos de governo de FHC (1995-2002) e de Lula (2003-2005). De uma média de 20,65 assassinados por ano, passamos para a triste marca de 40,67, totalizando na década 287 indígenas assassinados em meio a uma espiral de violência que só faz se ampliar continuamente.

Na raiz desta tragédia, o agravamento dos conflitos fundiários, fruto, entre outras causas, do avanço da fronteira agrícola impulsionada por poderosos grupos econômicos vinculados ao agronegócio. Como contraparte desse quadro de barbárie, a lentidão e inoperância, às vezes criminosas, das instituições do Estado, que possuem o dever constitucional de proteger e dar total amparo às comunidades indígenas. De 2003 para cá, a média de terras declaradas indígenas alcançou apenas 6, contra 11 no segundo mandato presidencial do PSDB.

Enquanto isso, prossegue o processo de invasão de áreas indígenas por grileiros e outros ocupantes – às vezes pequenos proprietários, posseiros, que são empurrados pelo latifúndio para um conflito sangrento com as comunidades indígenas. O caso da nação Tembé Tenetehara, no Pará, cujo confronto com os invasores se arrasta há décadas, sem solução, é um exemplo emblemático dessa situação insustentável.

Igualmente ameaçados na Amazônia estão os cerca de 60 povos sem contato, dos quais 17 na iminência de extinção em função das práticas genocidas que se mantém em vigor.

A denúncia da violência e do terror que continuam atormentando as nações indígenas no Brasil e o firme apoio à luta de resistência que esses povos desenvolvem, continua sendo mais que um dever político um imperativo moral inarredável.

Ilustração: Fac-símile do livro "Tembé-Tenetehara: A nação resiste", publicado pela Assembléia Legislativa do Pará em 1994, fruto da Comissão Especial de Estudos sobre os índios Tembé-Tenetehara da reserva indígena Alto Rio Guamá, constituída por requerimento de minha autoria, na época, deputado estadual em segundo mandato. 

 



postado por Luzes na Floresta - Edmilson Rodrigues as 05:15:24 5 comentários
Dedicatória - Para que nasçam novos guerreiros

“Em 7 de fevereiro de 2003, os jovens indígenas José Ademilson, 19 anos, do povo Xukuru, e Josenilson dos Santos, 25 anos, do povo Atikum, foram assassinados em uma emboscada. O alvo era o cacique Marcos Xukuru, mas os jovens guerreiros entraram em luta corporal com os assassinos e conseguiram salvar a vida do cacique. Ambos foram executados no local do ataque. Tornaram-se mártires da causa indígena. Fazem parte da memória de lutas do povo Xukuru. Como forma de perpetuar essa memória, o povo canta em ritmo toré a bravura dos dois:

                                      Nilson e Milsinho,

                                               Dois grandes guerreiros,

                                                        Salvaram o cacique

                                                                  Nosso chefe do terreiro...

Em 30 de junho de 2005, quatro integrantes da Polícia Civil de Pernambuco invadiram a terra indígena Truká e executaram o líder indígena Adenilson dos Santos Barros, em meio a uma festa de confraternização da comunidade onde mais de 600 pessoas, dentre elas crianças e anciãos, festejavam juntas. Seu filho, Jorge Adriano, 17 anos, foi executado juntamente com o pai, enquanto tentava salvar sua vida.

A Nilson, Milsinho, Adriano e tantos outros jovens que doaram suas vidas em defesa de uma causa, dedicamos as palavras de Zenilda Xakuru, pronunciadas durante os rituais funerários do seu esposo, cacique Xicão, também assassinado por defender o território de seu povo:

“Recebe teu filho, minha Mãe Natureza. Ele não vai ser sepultado. Ele vai ser plantado na tua sombra, como ele queria. Para que dele nasçam novos guerreiros.”



postado por Luzes na Floresta - Edmilson Rodrigues as 04:08:38 2 comentários
A palavra do bispo: testemunho de uma grande frustração

“(...) O resultado está neste texto – A Violência contra os povos indígenas no Brasil – e  ele é, de certa forma, um testemunho documental e cronológico de uma grande frustração política, humana e indigenista: aquela referente às igualmente grandes esperanças levantadas com a eleição do primeiro presidente operário da história brasileira, Luis Inácio Lula da Silva. Imaginamos, sonhamos um dia que, com este governo, os indicadores de violência contra os povos indígenas iriam retroceder aos seus níveis mínimos e uma nova era de boas novas se anunciaria para as comunidades indígenas de todo o país.

Como poderão constatar ao logo destas páginas, a violência não só não regrediu, mas, ao contrário, aumentou até níveis nunca alcançados historicamente, em determinados aspectos.

No entanto, podemos aqui lembrar o poeta romântico inglês Shelley, que escreveu: “Esperar que a Esperança construa, de sua própria ruína, aquilo que ela vislumbra”.

(...)

Pois, das cinzas dos nossos sonhos, construiremos uma nova Esperança, mais enraizada no chão da Vida, mais transformadora e prenhe de futuro.

Brasília, 30 de maio de 2006

Dom Franco Masserdotti

Bispo de Palmas

Presidente do Conselho Indigenista Missionário

 

 



postado por Luzes na Floresta - Edmilson Rodrigues as 04:01:45 1 comentários
terça, 13 junho, 2006
Poesia mexicana - A arte da palavra, por Octavio Paz

ENTRE O QUE VEJO E O QUE DIGO...

A Roman Jakobson
                          Traduzido por Anderson Braga Horta

                                                                                                             

Entre o que vejo e o que digo,

entre o que digo e o que calo,

entre o que calo e o que sonho,

entre o que sonho e o que esqueço,

a poesia.

   Desliza

entre o sim e o não:

         diz

o que calo,

      cala

o que digo,

      sonha

o que esqueço.

Não é um dizer:

é um fazer.

      É um fazer

que é um dizer.

 A poesia

se diz e se ouve:

   é real.

E, apenas digo

 é real,

se dissipa.

     Será assim mais real?

 

2

 

Idéia palpável,

palavra

impalpável:

      a poesia

vai e vem

    entre o que é

e o que não é.

          Tece reflexos

e os destece.

        A poesia

semeia olhos na página,

semeia palavras nos olhos.

Os olhos falam,

  as palavras olham,

os olhares pensam.

        Ouvir

os pensamentos,

   ver

o que dizemos,

tocar

o corpo da idéia.

    Os olhos

se fecham,

     as palavras se abrem´.

 

Octavio Paz  
OCTAVIO PAZ (1914–1998) — Mexicano. Prêmio Nobel de Literatura em 1991. Importante ensaísta e conferencista (El Laberinto de la Soledad, El Arco y la Lira, El Mono Gramático, Los Hijos del Limo, Sor Juana Inés de la Cruz o las Trampas de la Fe). Alguns livros de poesia: Piedra de Sol, Salamandra, Blanco, Vuelta, Árbol Adentro.



postado por Luzes na Floresta - Edmilson Rodrigues as 07:06:10 2 comentários
quinta, 08 junho, 2006
Nossa América, segundo Roque Dalton

AMERICALATINA

El poeta cara a cara con la luna
fuma su margarita emocionante
bebe su dosis de palabras ajenas
vuela con sus pinceles de rocío
rasca su violincito pederasta.

Hasta que se destroza los hocicos
en el áspero muro de un cuartel”.

Roque Dalton

Roque Dalton nasceu em 14 de maio de 1935 em San Salvador, El Salvador. Foi jornalista, poeta, guerrilheiro e homem de todas as artes. Desde jovem se destacou no mundo das letras, tanto no jornalismo como na literatura. Estudou direito e antropologia em destacadas universidades de El Salvador, Chile e México. Perseguido pela ditadura militar salvadorenha, foi preso e banido. Viveu na Guatemala, Cuba, Checoslováquia, Vietnã, Coréia e em outros países. Morreu aos 40 anos, tragicamente assassinado por seus companheiros de luta armada em 10 de maio de 1975.



postado por Luzes na Floresta - Edmilson Rodrigues as 11:51:56 0 comentários
segunda, 05 junho, 2006
Crime de Guerra 1 - Iraque em chamas

Os Estados Unidos começaram a perder a guerra do Vietnã no exato momento em que a sala de estar das famílias norte-americanas foram invadidas pelas cenas da barbárie, transmitidas todas as noites pela TV. Os massacres de civis, o banho de sangue permanente das expedições punitivas, o inferno do napalm, tudo isso foi corroendo, pouco a pouco, a ideologia que sustentava a invasão militar como obra de um esforço “libertador” e  “civilizatório”. Mas, o que foi decisivo para que a maior potência militar do planeta fosse subjugada pelo pequeno – e heróico – povo vietnamita foi a entrada em cena de um forte, radical e profundamente humanista movimento popular anti-guerra. Esta aliança inusitada  - resistência encarniçada do povo do Vietnã e luta de massas da juventude nos Estados Unidos – foi a chave que conduziu, após mais de 10 anos de massacre ininterrupto, a um desfecho favorável à paz.

No momento em que surgem mais denúncias de chacinas de civis no Iraque, executadas pelas forças de ocupação, como foi o caso do massacre de 11 civis, incluindo mulheres e crianças, na cidade de Ishaqi, cerca des 100km ao norte da capital, Bagdá, torna-se ainda mais urgente e necesaria a retomada e ampliação de um forte movimento social pela paz. Somente assim será possível derrotar a política genocida do governo de George W. Bush.

 



postado por Luzes na Floresta - Edmilson Rodrigues as 10:53:21 1 comentários
Crime de Guerra 2 - Vietnã, infinito horror

O horror, o verdadeiro horror, ia me dar seu bote de tigre no meio da floresta, no vilarejo montanhês de Thinh Lang.Eu acabava de ter uma alegre entrevista com o chefe do Comitê Administrativo local, um camarada dinâmico, animado. Bebemos chá e comemos grapefruit com a mão, em gomos. Ele abriu a mão, cheia de caroços da fruta:

- A semente dá um óleo muito importante para a indústria. Os meninos da escola secundária estão estudando as sementes o tempo todo, ao microscópio, para melhorar o aproveitamento. Os americanos têm atrapalhado a gente um bocado, mas também ajudam. No dia 12 de outubro de 1967, por exemplo, nos bombardearam 12 vezes. Acabaram com tudo. Nunca entendi por quê. A estrada de Hanói passa a mais de um quilômetro daqui e a única indústria que tínhamos era uma máquina de descaroçar arroz. Por outro lado, como nossas casas são de palha, foi fácil construir outras, mais bonitas.

Ele apontou o teto da cabana sobre estacas, em que estávamos. As vigas de sustentação do teto eram trabalhadas: o dragão do Vietnã, cara pintada de vermelho e de ouro.

- Só foi pena, mesmo, que os americano jogassem bombas de fósforo, que causam queimaduras horríveis, quando não matam.

Saímos em direção ao rio Da, o S. Francisco, que eu devia atravessar de volta. E passamos pela cabana de Nguyen Thai Van, uma mulher semidestruída por bomba de fósforo. Quase sem cabelo, as sobrancelhas reduzidas a dois tufos em frincha de pelos crespada, os ossos da mão direita visíveis debaixo da pele como se tivessem posto uma luva transparente em mão de esqueleto. A mão esquerda não era nada. Um punho com protuberâncias. E vermelho, vermelho como se fosse sangrar. Ao que me dizem o napalm queima e queima. Mesmo que quem esteja em fogo mergulhe num lago o napalm continua a arder. O fósforo apaga. Mas a mulher estava só em casa, sem o marido, e tinha nove filhos a carregar para o abrigo quando a bomba ateou fogo à sua palhoça e a ela própria.

-Consegui salvar sete dos meninos – disse ela – mas o fogo continuou me queimando o temo todo. Acabo de passar oito meses no hospital de Hanói. Lá tem gente muito pior que eu.

O que me veio à lembrança foi In Cold Blood, de Truman Capote. Dicks e Perrys, não mais atravessando os Estados Unidos de automóvel para assassinara família Clutter, mas atravessando o Pacífico de avião para queimar viva a família Van. A sangue frio.

 

(Antônio Callado, Vietnã do Norte, advertência aos agressores, Civilização Brasileira, 1969)

Foto: Nick Ut

A pequena Kim Phuc grita de dor em meio à destruição do Napalm (Vietnã, 1972)

 



postado por Luzes na Floresta - Edmilson Rodrigues as 10:36:33 0 comentários
domingo, 04 junho, 2006
Crime de guerra 3 – Século XX, uma montanha de 111 milhões de mortos

Depois do ciclo das duas grandes guerras – 1914-45 -, os territórios do capitalismo desenvolvido deixaram de ser cenários de guerra. Os EUA, por sua vez, cruzaram um século tão mortífero sem ter de amargar conflitos bélicos em seu território, embora tivessem sido o maior protagonista de guerras no século.

No entanto, centenas de conflitos se multiplicaram na periferia do mundo desenvolvido. No final do século XX, sobreviviam cerca de 50 conflitos armados.Alguns deles se revezavam no noticiário, ciclicamente – Angola, Etiópia/Eritréia, Afeganistão, Palestina, Chechênia, Chiapas, Colômbia, Iraque, Kosovo, Congo -, quando ficamos sabendo que a paz não chegou a se impor, enquanto outros nem chegam a ter esse status, tão repetitivos ou longínquos são.(...)

Apenas desde que foi decretada a paz no mundo, cerca de160 conflitos eclodiram, causando 40 milhões de mortos – o dobro do que teve a URSS, a maior vítima da Segunda Guerra. Desses mortos, apenas um quarto – 10 milhões – foram soldados, ou outros 30 milhões foram civis, incluindo 2 milhões de crianças. Noventa por cento dos conflitos armados se dão nos países chamados subdesenvolvidos, particularmente nos países pobres. Setenta por cento da transferência de armamentos se faz com esses países, embora todos os grandes produtores sejam países chamados desenvolvidos, que faturam anualmente centenas de bilhões de dólares com essas vendas, uma parte das quais clandestina. (...)

Nos milênios de guerras que a humanidade já protagonizou, calcula-se que foram mortas cerca de 150 milhões de pessoas. Desse total, o século XX é responsável por 111 milhões de mortos (...).

(Emir Sader, Século XX, uma biografia não-autorizada – O século do imperialismo, Editora Fundação Perseu Abramo, 2000)

Foto: Robert Capa

Ataque aéreo sobre Barcelona, 1939



postado por Luzes na Floresta - Edmilson Rodrigues as 12:51:50 1 comentários
quarta, 31 maio, 2006
Guerras insanas

Após três anos de ocupação, os Estados Unidos contabilizam mais de 2600 soldados mortos. A grande maioria das baixas foi registrada após a queda do regime de Sadam Hussein, na interminável guerra civil e de resistência à ocupação estrangeira que dilacera o Iraque desde então. Na última segunda, 29, uma equipe de jornalistas da rede norte-americana CBS morreu num ataque da insurgência num subúrbio de Bagdá, quando uma bomba destroçou uma patrulha militar estadunidense. São dezenas os jornalistas que perderam a vida em meio a uma guerra marcada pela mais cruel violência, assim como são milhares de civis chacinados, oferecidos em holocausto no altar sagrado dos interesses geopolíticos das grandes corporações dos Estados Unidos e da Europa.

Sob o impacto dessa barbárie sem fim, recolhi dois exemplos da arte a serviço da denúncia da desumanidade de todas as guerras: a foto do genial fotógrafo húngaro Robert Capa (1914-1954), que ilustra esse post, retratando um soldado norte-americano que jaz morto, atingindo por  franco-atiradores alemãs, em Leipzig (18 de abril de 1945); e uma poesia da genial Cecília Meirelles, intitulada “Guerra”, que reproduzo a seguir:

“GUERRA

Tanto é o sangue
que os rios desistem de seu ritmo,
e o oceano delira
e rejeita as espumas vermelhas.
Tanto é o sangue
que até a lua se levanta horrível,
e erra nos lugares serenos,
sonâmbula de auréolas rubras,
com o fogo do inferno em suas madeixas.
Tanta é a morte
que nem os rostos se conhecem, lado a lado,
e os pedaços de corpo estão ali
como tábuas sem uso.
Oh, os dedos com alianças perdidos na lama...
Os olhos que já não pestanejam com a poeira...
As bocas de recados perdidas...
O coração dado aos vermes, dentro dos densos uniformes...
Tanta é a morte
que só as almas formariam colunas,
as almas desprendidas...
- e alcançariam as estrelas.
E as máquinas de entranhas abertas,
e os cadáveres ainda armados,
e a terra com suas flores ardendo,
e os rios espavoridos como tigres, com suas máculas,

e este mar desvairado de incêndios e náufragos,
e a lua alucinada de seu testemunho,
e nós e vós, imunes,
chorando, apenas, sobre fotografias,
-tudo é um natural armar e desarmar de andaimes
entre tempos vagarosos,
sonhando arquiteturas”.

Cecília Meireles



postado por Luzes na Floresta - Edmilson Rodrigues as 03:45:17 1 comentários
Violência sem fronteiras – 63 jornalistas assassinados em 2005

Em 2005, foram assassinados, pelo menos, 63 jornalistas no exercício de sua profissão, ou por manifestar suas opiniões. Uma cifra que não era tão elevada desde 1995 (naquele ano encontraram a morte 64 jornalistas, 22 deles na Argélia). Também mataram cinco colaboradores de meios de comunicação (produtores, motoristas, tradutores, técnicos, agentes de segurança, etc.).

Pelo terceiro ano consecutivo, o Iraque continua sendo o terreno mais assassino : ali, 24 jornalistas e 5 colaboradores dos meios encontraram a morte durante o ano. No total, 76 jornalistas e colaboradores morreram no Iraque desde o início do conflito armado, em março de 2003. Vale dizer, mais que durante a guerra do Vietnã, entre 1955 e1975. Os atentados terroristas e os ataques da guerrilha iraquiana são a primeira causa de mortalidade entre os profissionais da informação. Mas o exército norte-americano é responsável pela morte de três jornalistas  e colaboradores de meios de comunicação. Em 28 de junho, disparos norte-americanos mataram o diretor iraquiano Wael Al Bacri, de 30 anos. No dia seguinte, um porta-voz da 3ª divisão de infantaria, que tem base em Bagdá, reconheceu que uma unidade norte-americana estava implicada na morte do jornalista, e que havia sido aberto uma investigação. Desde então, o exército não apresentou nenhum resultado deste caso. O mesmo que ocorreu em todos os outros casos anteriores.

Fonte: Repórteres Sem Fronteiras (www.rsf.com.fr)

 



postado por Luzes na Floresta - Edmilson Rodrigues as 03:42:40 0 comentários
segunda, 29 maio, 2006
Em busca da terra prometida - Mais de 1 milhão de acampados

Na Folha de São Paulo de hoje:

Sem-terra acampados já somam 1 milhão sob Lula

Número de famílias em barracos de lona subiu de 60 mil, em 2002, para 230 mil

Ministério não comenta levantamento da Ouvidoria Agrária Nacional; aumento mostra "incapacidade do governo", afirma MST

EDUARDO SCOLESE
DA SUCURSAL DE BRASÍLIA

A quantidade de sem-terra acampados explodiu neste ano eleitoral. Levantamento recente feito pelo governo federal revela que cerca de 1 milhão deles está espalhado pelo país morando debaixo de barracos de lona à espera de um lote de terra da reforma agrária.
Ao lado das invasões de terra, a criação e o inchaço dos acampamentos são os principais instrumentos de pressão dos movimentos que representam trabalhadores sem terra contra o Palácio do Planalto.
Quando o presidente Luiz Inácio Lula da Silva foi eleito, em outubro de 2002, a contabilidade oficial apontava 60 mil famílias acampadas. Hoje está em 230.813 famílias, o equivalente a 1 milhão de homens, mulheres e crianças.
Ao chegar ao Planalto, a primeira promessa de Lula aos sem-terra foi justamente priorizar o assentamento dos acampados. Neste ano, ao concluir sua gestão, terá mais sem-terra nessas condições do que quando assumiu a Presidência da República.
Assunto proibido
O resultado do último levantamento da Ouvidoria Agrária Nacional obtido pela Folha é assunto proibido no Ministério do Desenvolvimento Agrário, a quem a ouvidoria é subordinada. Na pasta, a informação oficial é que não existe um número atualizado.
Segundo o ministério, valeria o censo realizado no final de 2003, que apontou 162 mil famílias acampadas.
Na prática, a preocupação do governo com a divulgação do número é que o aumento dos acampados somente reforce o discurso do MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra) em torno da ineficiência de sua política de reforma agrária, que, de fato, tem privilegiado o assentamento de agricultores na Amazônia Legal (Estados do Norte, além de Maranhão e Mato Grosso), onde o movimento atua com timidez e os projetos carecem de água tratada, energia elétrica, rede de esgoto e estradas de acesso.
Até dezembro, para cumprir integralmente a meta do Plano Nacional de Reforma Agrária, o governo terá de assentar pelo menos 155 mil famílias.
No ano passado, diz ter assentado 127 mil. Em 2006, porém, além de uma greve de servidores do Incra (Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária), o Planalto vê o pior ritmo de desapropriação de terra da gestão.
"Incapacidade"
"Esse número [230 mil famílias] mostra que os trabalhadores se organizaram nos acampamentos com a esperança de que Lula fosse resolver os problemas da reforma agrária. Mostra ainda a incapacidade e os limites do governo Lula de cumprir as suas promessas", disse Marina Santos, da coordenação nacional do MST.
Essas 230.813 famílias representam o tamanho da clientela da reforma agrária. Nem todos, porém, vivem de fato debaixo da lona preta. É prática comum manter as famílias morando nas periferias das cidades e fazê-las seguir para os barracos somente quando são chamadas pelos líderes dos movimentos.
Todas as famílias acampadas e cadastradas por uma das 30 superintendências regionais do Incra recebem uma cesta de alimentos do Ministério do Desenvolvimento Social. No ano passado, o governo distribuiu 1,3 milhão de cestas a 226,2 mil famílias acampadas.
Neste ano, 213,7 mil famílias foram beneficiadas com o recebimento de pelo menos uma cesta de alimentos, que tem oito itens e custa R$ 45.
Foto:Leonardo Wen - 23.abr.2006/Folha Imagem
Criança dentro de um barraco de lona em um acampamento montado pelos sem-terra do MST, em Teixeira de Freitas, na Bahia



postado por Luzes na Floresta - Edmilson Rodrigues as 07:59:02 0 comentários
sexta, 26 maio, 2006
Belo Monte embargada – Justiça manda suspender estudos

A desembargadora federal Selene Maria de Almeida, do Tribunal Regional Federal da 1ª Região (TRF1), em Brasília, determinou a suspensão dos estudos relativos à construção da hidrelétrica de Belo Monte, no Pará. Com a sentença, a desembargadora, conhecida por uma atuação independente e crítica, revogou a decisão do juiz Herculano Martins Nacif, da Vara Federal de Altamira, que autorizara o Ibama e a Eletronorte a realizar estudos prévios de impacto sócio-ambiental, no último dia 16.

Desta feita, a Justiça Federal voltou a acatar os argumentos do Ministério Público Federal, segundo os quais a realização de qualquer estudo relativo à Belo Monte deverá obedecer estritamente o artigo 231 da Constituição Federal, que obriga a realização de consulta prévia às comunidades indígenas a serem afetadas pelo projeto.

Detida mais uma investida oficial contra os direitos das nações indígenas e das populações tradicionais – quilombolas, pequenos agricultores e demais trabalhadores que vivem de seu próprio trabalho – cabe não baixar a guarda, seguir no esforço de mobilização e organização do povo, justamente porque ainda está distante a vitória definitiva nesta questão. Nunca é demais recordar que são muito poderosos interesses envolvidos na manutenção do modelo elétrico destinado a ofertar energia boa e barata aos grandes monopólios transnacionais. Nesta equação destrutiva, restariam ao povo apenas as promessas de um mundo de fartura intangível em meio a um abismo real de doença, destruição e barbárie social.



postado por Luzes na Floresta - Edmilson Rodrigues as 02:21:25 8 comentários
segunda, 22 maio, 2006
Tragédia anunciada - Belo Monte a qualquer custo?

Nesta semana mais uma vez a Justiça Federal liberou a realização de estudos sócio-ambientais visando a construção da Hidrelétrica de Belo Monte, na região do Xingu, no Pará. A decisão coube ao juiz Herculano Martins Nacif, da Vara Federal de Altamira, que revogou liminar que impedia que tais estudos fossem realizados antes da consulta às comunidades indígenas, como determina expressamente a Constituição Federal em seu artigo 231.

Com essa medida, abre-se novamente a possibilidade de se cometer uma violência inominável contra os direitos e a própria sobrevivência de milhares de índios que habitam aquela região. São nove nações indígenas, em dez Terras Indígenas, ocupando um total de 5,3 milhões de hectares. São os Juruna, os Assurini do Xingu, os Araweté, os Parakanã, os Kararaô, os Xikrin do Bacajá, os Arara, os Kuruaia e os Kaiapó.

A história do projeto de Belo Monte (antes denominada de Kararaô, que significa “grito de guerra” na língua Kaiapó) é longa e marcada por conflitos permanentes. Por mais de 25 anos as nações indígenas, as comunidades camponesas e a sociedade civil em todos os níveis vêm se levantando contra uma estratégia de construção de megaobras para o aproveitamento hidrelétrico da Amazônia, cujas principais conseqüências têm sido a produção de profundos danos sócio-ambientais irreparáveis e reprodução em escala ampliada da miséria de imensas parcelas da população da Amazônia.

Prevista para custar U$ 3,7 bilhões, inundando cerca de 400 km2 para produzir 11.182 MW de potência instalada,  a usina de Belo Monte é apontada pelo governo federal como indispensável para que se evite um colapso no fornecimento de energia no país até 2010.

Esse discurso não é nem um pouco inovador. Na verdade, após um breve período de hesitação, o governo Lula manteve as mesmas diretrizes herdadas de seus antecessores, desde o regime militar até FHC. O cerne dessa política é continuar fornecendo energia firme e a preço subsidiado para os grandes monopólios eletrointensivos, cujos produtos, de baixo valor agregado, abastecem o mercado internacional, gerando um número cada vez mais insignificante de empregos. Essa foi a lógica da hidrelétrica de Tucuruí. E são os mesmos poderosos interesses – notamente das empresas de alumínio que já utilizam 8% de toda a energia produzida no País – que estão por trás de Belo Monte.

Romper com esse modelo é um imperativo para a sobrevivência não só das nações indígenas ameaçadas diretamente, mas também de tudo que a Amazônia representa como patrimônio do povo brasileiro.

O Ministério Público Federal já anunciou que irá recorrer da medida judicial. Para os procuradores Felício Pontes Jr e Marco Antonio Delfino de Almeida "a construção da usina hidrelétrica de Belo Monte nas condições jurídicas atuais equivale à edificação de um monumento ao desrespeito à Constituição".

Cabe aos movimentos sociais prosseguir com essa histórica luta de resistência , não deixando perecer o exemplo de bravura da índia Tuíra, da nação Kaiapó, que em 1989 demonstrou toda a indignação de seu povo ao aproximar um facão do rosto do então presidente da Eletronorte, José Antônio Muniz Lopes,  produzindo uma imagem que correu o mundo como forma de denúncia de um crime que, após quase 20 anos, pretende-se perpetrar.



postado por Luzes na Floresta - Edmilson Rodrigues as 11:00:24 4 comentários
Balbina: o passado condena

“Construída no Rio Uatumã (AM) e inaugurada parcialmente em 1988, a Usina de Balbina é considerada um dos piores investimentos do país do ponto de vista econômico, ambiental e social. Inundou uma área de 2,3 mil km2 para uma potência instalada de apenas 250 MW. Entre o imenso passivo socioambiental de Balbina está a inundação de 30 mil hectares da Terra Indígena (TI) Waimiri-Atroari, o que obrigou o remanejamento de duas aldeias. Para compensá-los, a Eletronorte financiou a demarcação da TI Waimiri-Atroari, de 2,5 milhões de hectares, e o Programa Waimiri-Atroari, que envolve ações nas áreas de saúde, educação, meio ambiente, apoio à produção, vigilância dos limites, administração e documentação e memória durante 25 anos

“Em Tucuruí, que é nossa referência, houve aumento de prostituição e violência. Não existe uma coisa certa sobre os impactos das grandes hidrelétricas na Amazônia, uma área tropical com uma quantidade considerável de biomassa - conjunto de matéria orgânica depositadas em um determinado lugar. Isso pode causar alterações, por exemplo, no ciclo do carbono - envolve a fixação de dióxido de carbono inorgânico pela fotossíntese, formando compostos orgânicos complexos até o retorno final à atmosfera por respiração e decomposição”, descreve Reinaldo Correa Costa. Por outro lado, ele ressalta que existem estudos que apontam a absorção do carbono pelas plantas. “Em Tucuruí, a floresta foi colocada debaixo da água e esse material entrou em decomposição, gerando uma super oferta de alimentos para insetos, o que acabou expulsando as populações da beira do rio.”  A falta de peixes é outro problema descrito por Costa. Segundo ele, um grupo que costumava remar três horas para pescar, após a obra estava remando de seis a dez horas para encontrar peixes. De acordo com Glenn Switkes, da IRN, já existem estudos feitos em Tucuruí, onde a cobertura vegetal não foi retirada para a construção da usina, e em uma outra barragem da Guiana Francesa, que comprovam a enorme liberação de gás carbônico na atmosfera por reservatórios e barragens em rios tropicais”.

Fonte:

http://www.socioambiental.org/esp/bm/index.asp



postado por Luzes na Floresta - Edmilson Rodrigues as 10:38:55 2 comentários
O programa abandonado

"Dois projetos vêm sendo objetos de intensos debates: a Usina Hidrelétrica de Belo Monte, no Pará, e o de Gás de Urucu, no Amazonas. Além desses também preocupam as 18 barragens propostas na Bacia do Rio Araguaia e Tocantins. A matriz energética brasileira, que se apóia basicamente na hidroeletricidade, com megaobras de represamento de rios, tem afetado a Bacia Amazônica. Considerando as especificidades da Amazônia, o conhecimento fragmentado e insuficiente que se acumulou sobre as diversas formas de reação da natureza em relação ao represamento em suas bacias, não é recomendável a reprodução cega da receita de barragens que vem sendo colocada em prática pela Eletronorte". (...)

"Intervenções econômicas e ecológicas de grande porte na Amazônia requerem base científica sólida, amplo esclarecimento público e acordos políticos entre os diferentes setores da sociedade para que sejam assegurados os meios de uma exploração com o mínimo de impacto negativo e o máximo benefício para todos. A matriz energética demanda modernização urgente, começando por assimilar conceitos de sustentabilidade e, como política pública, deve ter maior compromisso com a sociedade, condicionando a viabilidade econômica também à viabilidade socioambiental. Usinas hidrelétricas como Tucuruí foram construídas para fornecer energia subsidiada para grandes projetos de exploração mineral que não internalizam o desenvolvimento. A ineficiência desse tipo de obra foi duramente revelada com a construção de Balbina, que alagou 3 mil km2 de florestas e não tem força para abastecer Manaus nos verões mais rigorosos. Balbina se revelou um documento da insanidade na tomada de decisão sem atenção aos interesses coletivos".

Caderno temático O Lugar da Amazônia no Desenvolvimento do Brasil, parte do Programa do Governo do presidente Lula (2002)



postado por Luzes na Floresta - Edmilson Rodrigues as 10:28:30 0 comentários
Belo Monte – Três décadas de muitos erros

1975 - O aproveitamento hidrelétrico da Amazônia, cujo potencial representa 60% do total do país, figura entre as prioridades do projeto desenvolvimentista de industrialização brasileira e começa a ser diagnosticado na década de 70. A recém-criada Eletronorte, subsidiária da Centrais Elétricas Brasileiras - Eletrobras na Amazônia Legal, inicia os Estudos de Inventário Hidrelétrico da Bacia Hidrográfica do Rio Xingu. O trabalho de mapear o rio e seus afluentes e definir os pontos mais favoráveis para barramentos ficou sob a responsabilidade do Consórcio Nacional de Engenheiros Consultores S.A., integrante do grupo Camargo Côrrea.

1980 - Finalizado o relatório dos Estudos de Inventário Hidrelétrico da Bacia Hidrográfica do Rio Xingu. Para o aproveitamento integral da Bacia do Rio Xingu, foram previstos sete barramentos, que gerariam 19 mil megawatts (MW), metade da capacidade instalada nas hidrelétricas brasileiras à época. Essas usinas representariam o alagamento de mais de 18 mil km2 e atingiriam sete mil índios, de 12 Terras Indígenas, além dos grupos isolados da região.

1980 - A partir das recomendações do relatório final do estudo, a Eletronorte inicia os estudos de viabilidade técnica e econômica do chamado Complexo Hidrelétrico de Altamira, que reunia as Usinas de Babaquara (6,6 mil MW) e Kararaô (11 mil MW).

1986 - Concluído o Plano 2010 - Plano Nacional de Energia Elétrica 1987/2010. Propõe a construção de 165 usinas hidrelétricas até 2010, 40 delas na Amazônia Legal, com o aumento da potência instalada de 43 mil MW para 160 mil MW, e destaca: "pela sua dimensão, o aproveitamento do Rio Xingu se constituirá, possivelmente, no maior projeto nacional no final deste século e começo do próximo". Os estudos do Plano indicam Kararaô como a melhor opção para iniciar a integração das usinas do Rio Xingu ao Sistema Interligado Brasileiro. Até então, os estudos de Babaquara eram a prioridade.

1988 - O Relatório Final dos Estudos de Inventário Hidrelétrico da Bacia Hidrográfica do Rio Xingu é aprovado pelo Departamento Nacional de Águas e Energia Elétrica (DNAEE), extinto órgão regulador do setor elétrico.

1988 - Paulinho Paikan, líder Kaiapó, Kube-I Kaiapó e o etnobiólogo Darrel Posey, do Museu Emílio Goeldi do Pará, participam, em janeiro, na Universidade da Flórida, em Miami (EUA),de um simpósio sobre manejo adequado de florestas tropicais. Ali, relatam indignados que o Banco Mundial (BIRD) iria financiar um projeto de hidrelétricas no Xingu que inundaria sete milhões de hectares e desalojaria 13 grupos indígenas. Apesar de serem diretamente atingidos, os índios não tinham sido consultados. Foram convidados a repetir o relato em Washington.

1988 - Em março, pelas declarações em Washington, Paiakan e Kube-I são processados e enquadrados na Lei dos Estrangeiros. Quando voltam ao Brasil, recebem o apoio do Centro Ecumênico de Documentação e Informação (Cedi), uma das organizações que originou o Instituto Socioambiental (ISA), que faz campanha mobilizando a opinião pública contra a arbitrariedade. Somente em 16/02/1989, o Tribunal Federal de Recursos decidiria pela concessão de habeas corpus aos dois e também pelo trancamento da ação penal.

1989 - Realizado o 1º Encontro dos Povos Indígenas do Xingu, em fevereiro, em Altamira (PA). Patrocinado pelos Kaiapó, conta com a participação da equipe do Cedi desde o início dos preparativos até a implantação, realização e avaliação do encontro. Seu objetivo é protestar contra as decisões tomadas na Amazônia sem a participação dos índios e contra a construção do Complexo Hidrelétrico do Xingu.

O encontro acaba ganhando imprevista notoriedade, com a maciça presença da mídia nacional e estrangeira, de movimentos ambientalistas e sociais. Reúne cerca de três mil pessoas. Entre elas: 650 índios de diversas partes do país e de fora, lideranças como Paulo Paiakan, Raoni, Marcos Terena e Ailton Krenak; e autoridades como o então diretor e durante o governo FHC, presidente da Eletronorte, José Antônio Muniz Lopes, além de 300 ambientalistas, 150 jornalistas e o cantor inglês Sting.

1990 - A Eletronorte envia ao Departamento Nacional de Águas e Energia Elétrica (DNAEE) o Relatório Final dos Estudos de Viabilidade do Aproveitamento Hidrelétrico de Belo Monte, antiga Kararaô, solicitando sua aprovação e outorga de concessão.

1994 - Novo projeto, remodelado para se mostrar mais palatável aos ambientalistas e investidores estrangeiros, é apresentado ao DNAEE e à Eletrobras. O reservatório da usina, por exemplo, é reduzido de 1.225 km2 para 400 km2, evitando a inundação da Área Indígena Paquiçamba.

1996 - A Eletrobrás solicita autorização à Aneel para, em conjunto com a Eletronorte, desenvolver o complemento dos Estudos de Viabilidade do Aproveitamento Hidrelétrico de Belo Monte.

2000 - Acordo de Cooperação Técnica é celebrado entre a Eletrobrás e Eletronorte com o objetivo de realizar os Estudos de Complementação da Viabilidade do Aproveitamento Hidrelétrico de Belo Monte.

2000 - O Plano Plurianual de 2000-2003 - instrumento de planejamento de médio prazo das ações do Governo Brasileiro apresentado ao Congresso -, nomeado Avança Brasil, contempla Belo Monte não apenas como uma obra estratégica para elevar a oferta de energia do país, mas também como um projeto estruturante do Eixo de Desenvolvimento - Madeira/Amazonas.

2000 - A Fundação de Amparo e Desenvolvimento de Pesquisas (Fadesp), vinculada à Universidade Federal do Pará (UFPA), é contratada para elaborar os Estudos de Impacto Ambiental (EIA) do Complexo Hidrelétrico de Belo Monte.

2001 - O Ministério das Minas e Energia anuncia, em maio, um plano de emergência de US$ 30 bilhões para aumentar a oferta de energia no país. Inclui a construção de 15 usinas hidrelétricas, entre as quais o Complexo Hidrelétrico de Belo Monte, que seria avaliada pelo Conselho Nacional de Política Energética - órgão criado em 1997, vinculado ao Ministério de Minas e Energia, voltado à formulação de políticas e diretrizes de energia - em junho do mesmo ano.

2001- Ainda em maio, o Ministério Público move ação civil pública para suspender os Estudos de Impacto Ambiental (EIA) de Belo Monte, cujo pedido é atendido por uma liminar da 4.ª Vara Federal de Belém, porque não houve licitação para a Fadesp, acusada, entre outros, de elaborar o EIA/RIMA das Hidrovia Araguaia-Tocantins e Teles-Tapajós com uma metodologia questionável sob o ponto de vista científico e técnico; a obra deve ser licenciada pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) e não pelo governo do Pará, já que o Xingu é um rio da União; e os EIA devem examinar toda a Bacia do Xingu e não apenas uma parte dela.

2001 - Governo edita a Medida Provisória 2.152-2 , em junho, conhecida como MP do Apagão, que, entre outras medidas, determina que o Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama) estabeleça licenciamento simplificado de empreendimentos do setor elétrico de “baixo impacto ambiental”. Estabelece também o Relatório Ambiental Simplificado, aplicável às hipóteses de obras em que não se exigirá o Estudo de Impacto Ambiental.

2001 - O Movimento pelo Desenvolvimento da Transamazônica e Xingu (MDTX), que reúne 113 organizações sociais, elabora, em agosto, um documento intitulado SOS Xingu: um chamamento ao bom senso sobre o represamento de rios na Amazônia.

2001 - Em setembro, Resolução do Conselho Nacional de Política Energética reconhece Belo Monte como de interesse estratégico no planejamento de expansão de hidreletricidade até 2010.

2001 - A Justiça Federal concede, em setembro, liminar à ação civil pública que pede a suspensão dos Estudos de Impacto Ambiental (EIA) de Belo Monte.

2002 - Em janeiro, a Eletrobrás aprova a contratação de uma consultoria para definir a modelagem de venda do projeto de Belo Monte.

2002 - Em março, uma Resolução do Conselho Nacional de Política Energética cria um Grupo de Trabalho (GT) com o objetivo de estudar e apresentar um plano de viabilização para a implantação da Usina Hidrelétrica de Belo Monte, sem participação da sociedade civil.

2002 - A Fundação Viver, Produzir e Preservar (FVPP), o Movimento pelo Desenvolvimento da Transamazônica e Xingu (MDTX), o Grupo de Trabalho Amazônico (GTA), a Federação dos Trabalhadores na Agricultura (Fetagri/Regional) e o Conselho Indigenista Missionário - Cimi Norte II enviam, em março, carta ao presidente Fernando Henrique Cardoso pedindo a suspensão de todas as obras de grande impacto na Amazônia, até que haja uma discussão exemplar e a construção de um consenso com a sociedade local.

2002 - Ainda em abril, o presidente Fernando Henrique Cardoso afirma que a birra de ambientalistas atrapalha o país, referindo-se à oposição e construção de usinas hidrelétricas. “Além do respeito ao meio ambiente, é preciso que haja também respeito às necessidades do povo brasileiro, para que a 'birra' entre os diferentes setores não prejudique as obras, porque elas representarão mais emprego.” Ele menciona que o projeto de Belo Monte foi refeito diversas vezes e que tem um “grau de racionalidade” bastante razoável.

2002 - Realizado o 1o Encontro dos Povos Indígenas da Região da Volta Grande do Rio Xingu, em maio, que reúne cerca de 250 representantes da sociedade civil e povos indígenas, para reafirmar posição contrária à construção de Belo Monte.

2002 - O candidato à presidência, Luiz Inácio Lula da Silva lança em setembro, O Lugar da Amazônia no Desenvolvimento do Brasil, no qual cita Belo Monte como um dos projetos de intensos debates na região, o documento também afirma que “ não é recomendável a reprodução cega da receita de barragens que vem